Como abreviações, gírias e expressões digitais influenciam a escrita, a cultura e a formação linguística na era da comunicação instantânea
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| A linguagem informal nas redes sociais é representada por abreviações e gírias que moldam a comunicação digital contemporânea. |
Análise dos impactos da linguagem informal digital na escrita, na cultura e, em especial, no domínio da norma culta na era da comunicação instantânea.
A linguagem informal tornou-se predominante nas redes sociais, refletindo a rapidez e a espontaneidade das interações digitais. Essa comunicação, marcada por abreviações, gírias e expressões coloquiais, atende à necessidade de agilidade na era digital. Embora não siga rigorosamente as normas gramaticais da língua portuguesa, constitui uma convenção compreensível entre os internautas.
A Convivência Digital e a Adaptação Linguística
A convivência prolongada nas redes sociais ensina os usuários a se comunicarem de forma rápida e informal. Essa linguagem, embora coloquial, é funcional e eficaz entre amigos e grupos sociais. No entanto, coexistem publicações de alta qualidade que seguem a norma culta, respeitando as regras gramaticais do português brasileiro e, em seus respectivos contextos, as de outras línguas.
Cada rede social possui suas próprias formas de interação, permitindo que os usuários se comuniquem sem grande preocupação com a correção gramatical. Essa liberdade linguística favorece a criação de abreviações e neologismos que facilitam a comunicação instantânea.
Convenções Digitais e Abreviações Comuns
Entre os termos mais utilizados nas redes sociais, destacam-se:
- Abreviaturas: Abs., Beijs, Bom finde, Bora, Vc, Tb, Pq, Qnd, N, Td
- Termos Estrangeiros: Block, Chat, DM, Inbox, Retweet, RT, Hashtag (#), TL
- Ações e Gírias: Linkar, Printar, Compas, Crush, Stalkear, Lacrar, Ranço, Shippar, Zoar, Tretar
- Muletas e Expressões: Tipo (muleta linguística), TMJ, SDV, Kkk, Rs, Haha, Hehehe
- Neologismos: Textão, Memeficar, Viralizar, Dar unfollow
Essas expressões funcionam como códigos digitais, rapidamente assimilados pelos usuários e incorporados à linguagem cotidiana.
Fake News e Crimes Cibernéticos
A rapidez e a superficialidade da comunicação digital, incentivadas pela linguagem informal, facilitam a disseminação de notícias falsas (fake news), um dos maiores desafios contemporâneos. A falta de atenção à precisão formal e ao rigor linguístico em checagens rápidas contribui para que informações manipuladas sejam amplamente aceitas.
Durante a pandemia da COVID-19, essas práticas criminosas intensificaram-se, prejudicando a saúde pública, a ciência e os sistemas democráticos.
Perfis falsos, contas fraudulentas e sites enganosos são utilizados para manipular informações e influenciar negativamente a opinião pública. Esses atos são considerados crimes cibernéticos e estão sujeitos às sanções legais nos países que aplicam leis de proteção digital.
Linguagem Formal na Internet
Apesar da predominância da linguagem informal nas redes sociais, há espaços que exigem o uso da norma culta. Publicações jornalísticas, acadêmicas, científicas e jurídicas mantêm elevado padrão de redação e conteúdo. A linguagem técnica é indispensável em áreas como a ciência, o direito, a filosofia e a literatura.
A adequação linguística é essencial para garantir clareza, precisão e credibilidade, especialmente em documentos oficiais e textos especializados.
A Linguagem Informal: Facilidade ou Prejuízo?
Diante da predominância da linguagem informal nas redes sociais, é pertinente questionar até que ponto essa prática representa mais prejuízos do que benefícios para os usuários. A informalidade facilita a comunicação cotidiana, mas essa comodidade pode gerar desinteresse pelo domínio da linguagem formal, especialmente entre os mais jovens.
A escrita informal tende a limitar o vocabulário, enfraquecer a estrutura sintática e comprometer a clareza em contextos que exigem precisão. O uso recorrente de abreviações, gírias e expressões coloquiais pode dificultar a adequação linguística em registros mais exigentes, como o acadêmico, o jurídico ou o profissional.
Por outro lado, é inegável que a linguagem informal possui valor comunicativo e cultural. O problema não está em sua existência, mas na ausência de equilíbrio entre os registros linguísticos.
Portanto, é necessário promover uma educação linguística que valorize tanto a fluência na linguagem informal quanto o domínio da norma culta. Investir na escrita formal é investir na capacidade de argumentar, interpretar e produzir conhecimento.
Entre a Agilidade e a Profundidade
A linguagem digital é dinâmica e adaptável. Os internautas rapidamente assimilam os códigos informais para facilitar a comunicação. Contudo, é fundamental reconhecer os contextos em que a linguagem formal é necessária e valorizada.
Ao dominar diferentes registros linguísticos, o indivíduo contribui para a convivência social e para a construção de legados significativos às futuras gerações.
A escrita é uma das formas mais poderosas de construir ideias, preservar culturas e transformar sociedades. Investir na linguagem formal é investir na autonomia intelectual e na capacidade de deixar marcas duradouras — como fazem os grandes pensadores, escritores, cientistas e cidadãos conscientes.
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Referências:
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Da fala para a escrita: atividades de retextualização. São Paulo: Cortez, 2001.
CASTELLS, Manuel. A Galáxia da Internet: Reflexões sobre a Internet, os Negócios e a Sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.
SANTAELLA, Lúcia. Comunicação e Cultura: as utopias midiáticas. São Paulo: Paulus, 2011.
Legislação Digital: Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014) e demais leis sobre crimes cibernéticos no Brasil.

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