“Tudo menos política.”
Letra garrafal, fundo vermelho, quase um aviso de guerra. Pensei: "Se eu tossir em tom de esquerda, talvez seja expulso pela janela."
Mas como bom gaúcho, decidi me fazer de salame (fingir que não entendi ou não notei). Não bati de frente com a placa, mas decidi abordar o assunto de forma sutil, quase uma maieutica socrática.
Comecei leve:
— E aí, tá rendendo bem hoje?
— Mais ou menos, né... a gasolina subiu demais, o app tá pagando menos, e ainda tem os impostos para pagar.
Ah, os impostos. A porta de entrada da política sem que ninguém perceba.
Segui:
— E a segurança? Tá tranquilo rodar à noite por aqui?
— Que nada! Outro dia quase fui assaltado. Cadê a polícia? Só aparece para multar.
Mais um ponto: segurança pública. Mas seguimos “sem falar de política”, claro.
— E os benefícios? Tem plano de saúde, férias, décimo terceiro?
— Que nada, aqui é cada um por si. Se ficar doente, é SUS e oração.
E lá estava: saúde pública, direitos trabalhistas, previdência. Mas tudo isso, segundo a placa, não é política. É só “vida real”.
No fim da corrida, não resisti e fechei o raciocínio:
— Tu sabe que tudo o que nós falamos... é política, né?
Ele respirou fundo, olhou pelo retrovisor e respondeu:
— Mas a gente não falou de partido, nem de eleição, nem em quem votar.
— Fica para a próxima viagem.
— Não! Só sobre outros assuntos.
— Combinado!
Saí do carro com a sensação de que a placa deveria ser atualizada para a próxima corrida:
“Tudo menos política... até que a gasolina suba, o salário falhe, o SUS demore e a polícia não apareça.”
Porque no Brasil, a política é como o feijão: Tem quem diga que não gosta, mas come todo dia — sem saber.

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